Quando a gente vê um ídolo, dá até uma menopausa, um calor nervoso, uma busca inútil por um culpado para o seu ridículo!

Eu sou um fã do Carpinejar. Já fui em noite de autógrafos, tirei foto junto, tentei falar bonito com ele, fiquei nervoso. As palavras fã e ridículo têm semânticas de intersecção – é a realidade.

O amigo e grande terapeuta Carlos Lampert comentou comigo uma vez que “a informação que interessa não está nas palavras”. Me deixou pensando. Como terapeuta estendi a frase: a informação que interessa não está nas palavras, está no todo, no pulso, na postura, no gesto, na cor, na direção do olhar. Focar nas palavras muitas vezes é desfocar da mensagem da alma e, olhar só para a informação da mente falante, muitas vezes confusa, impede a comunicação do que vai dentro da pessoa. A postura de escuta envolve disponibilidade de coração.

Capa do Livro: Cuide dos pais antes que seja tarde – Carpinejar.

Nesse livro, Carpinejar auto-ausculta seu coração de filho e busca, como sabe fazer bem, traduzir o que percebe em lindas palavras e comparações estonteantes. Transmite emoção e leva o leitor a identificar as próprias emoções de filho que carrega. O livro é curto, a leitura é rápida e parece medida para uma visita de fim de semana na casa dos pais. O li de ontem para hoje. É um ótimo presente! Segue trechos que me cativaram.

Ah, sim! Só uma coisa me incomodou no começo. A ideia de inversão de papéis que o título propõem. Muitas vezes os filhos estarem cuidando dos pais é uma desarmonia sistêmica da constelação da família. Porém, na fase idosa dos pais, essa inversão não causa desarmonias. Portanto, e isso fica claro no livro, cuidar dos pais também é aprender a ser filho. E não virar os pais deles na intensão de galopar na hierarquia natural.

Minha mãe não entra no fundo de uma piscina, mas é a que mais mergulha nos livros. Meu pai jamais aprendeu a andar de bicicleta, mas vive me dando carona em sua risada. Tenho amigos que não tocaram num volante de carro, e conhecem a cidade melhor do que ninguém. Não posso sentenciar que são despreparados, porque eles completam lacunas com outras sabedorias.

Há pessoas que não vão se casar, e experimentaram manifestações sublimes de amor. Há pessoas que não terão filhos, e cuidam dos sobrinhos e afilhados com imensa delicadezas. Há pessoas, sem amigos, que são amigas dos seus pensamentos. Há pessoas com uma roda infinita de companhias com medo da própria solidão. Há pessoas que nunca moraram sozinhas, e acertaram as contas familiares e cuidaram da velhice dos entes queridos. Há pessoas que não colocaram uma gota de álcool na boca, e são ébrias por natureza.

Talvez a preparação da vida seja amar, desamar e amar de novo, não convertendo os dissabores em preconceitos.

Daí ela disse: “Não plantei para mim, plantei para os meus netos”. Nem tudo na vida precisa ser visto para ser amado

Ao beijá-la para me despedir, ela abençoa a minha testa com o sinal da cruz e pontua com firmeza, tal mandamento bíblico: “Não esqueça de me devolver o potinho”. Na verdade, ela não se importa com os potes, mas comigo. O pote é um pretexto. Eu já entendi que toda mãe guarda os potinhos para garantir a próxima visita do filho. A devolução é a esperança de que terá novamente as suas crianças grandes por perto.

A culpa é uma colecionadora compulsiva.

Amor de pai e amor de mãe desrespeitam o aproveitamento de espaço.

Obrigado, mãe, por não ter me tornado sua única fonte de felicidade.

Obrigado, mãe, por chorar e não criar a solenidade das lágrimas, sei chorar bonito como você e nunca me escondo no quarto, a tristeza precisa da casa inteira e um pouquinho de música ao fundo.