Há muito que eu não ria de doer a barriga com um livro. Para minha sorte, esse conseguiu! Chegou-me como um presente da cidade de São Paulo. Passeando no parque Trianon com uma amiga, encontrei-o num banco e dentro dele um bilhete que dizia:

Olá! Sou o autor desse livro que está em suas mãos… gostaria de compartilhar os “causos” que a vida me proporcionou… leia e se divirta… e na sequência “esqueça” em algum lugar com esse recado. Abraço

Apesar de eu não saber se o encontrei em primeira mão, tendo sido deixado naquele banco pelo próprio autor, ou algum provável primeiro leitor cuidadoso (pois o livro estava fresquinho de novo); a pessoa que o pegar depois de mim observará que, muito provavelmente, já passou por pelo menos uma pessoa antes. Ficou um pequena mancha de óleo essencial na ante capa (registro histórico de ter passado por alguém trabalha com óleos essenciais).

Capa do Livro: Mas a história não é essa - Jose Fernando Bruno
Capa do Livro: Mas a história não é essa – Jose Fernando Bruno

O livro é uma reunião de pequenos causos da vida do autor. E que causos! Muito prazeroso de se ler, tanto pelos fatos que trazem e quanto pela forma como são contados. Há uma riqueza leve de detalhes da esferas profissional e pessoal do autor. Detalhes que nos remetem a descrição de processos que eram feitos no passado e nos levam a lugares da memória, ou acrescentam coisas novas sobre o passado que não sabíamos e nos são curiosas: o prazer da leitura!

Depois de um ano difícil, minha capacidade de leitura esteve muito diminuída. E esse foi o livro que me ajudou a “voltar”. Que delícia de histórias! O que mais me tocou foram os registros de pregação de peças. Coisa que o pessoal mais antigo tinha de um jeito muito diferente do que é hoje. Como por exemplo, no causo em que um vendedor, forasteiro e gago, é direcionado para a casa do morador gago e mal-humorado da cidade, que achou que o vendedor gaguejava para zombar dele e foi um “deusnosacuda” a tentativa de entendimento entre os dois. Arte dos moleques da rua e que acontece muito menos hoje em dia ou eu não tenho mais contato com esse “universo cordial”. Outra peça: o amigo que se fez de cego no baile do clube para ganhar atenção das meninas, deu certo por um bocado do tempo mas no fim da festa o safado se deu muito mal quando elas descobriram e ficaram furiosas.

Essa coisa de pregar peças pode envolver riscos e despertar sentimentos ruins mas também pode ser muito saudável e conectada com a leveza da vida. Como quando o autor reservadamente rezou sempre uns 10 minutos por três meses para um túmulo, desconhecido por todos, na visita semanal da família da esposa ao cemitério. Quando não aguentaram de curiosidade, questionaram ele, que respondeu que o lote pertencia a sua família e, como ele provavelmente iria para lá no fim da vida, então estava acumulando crédito de oração para si mesmo. Coisinhas indefesas só para perturbar! No fundo, a gente perturba quem a gente gosta. Se dar a um trabalho desses envolve um certo tipo de consideração.

Espero que um dia você encontre esse livro por aí e possa dar boas gargalhadas de contrair a barriga! Meus agradecimentos ao autor por sua disposição em escrever e a naturalidade em oferecer ao mundo essas histórias, que já devem ter divertido muitos de seus amigos e familiares. Um abraço em você!