Começo a minha primeira leitura de um livro sobre Moxabustão e me deparo com a frase abaixo, que me deixou reflexivo por meses, acredite – buscando compreender quais os limites de sua abrangência na questão do desenvolvimento humano; de alguma melhora que envolva a sua evolução, consequentemente, uma cura (em um sentido mais amplo da palavra e que considere que, enquanto não nos iluminarmos, não estaremos de fato curados).

“Aquele que pode curar outros da mesma doença que já teve, ficou realmente curado”.
Tomio Kikuchi, em Moxabustão

Kikuchi é considerado um mestre aqui em São Paulo. Sempre que posso, me dirijo a seu restaurante macrobiótico (Satori) no Bairro da Liberdade para um almoço reparador. Gosto tanto de me alimentar lá, que já passei com especial carinho um dos meus aniversários naquele cantinho escondido, todo feliz!

capa do livro moxabustão filosofia da medicina oriental, Tomio Kikuchi

Capa do livro Moxabustão – Filosofia da Medicina Oriental, Tomio Kikuchi

É comum ao universo da terapia usar a comparação do ser humano a uma árvore. Onde dos ombros para cima temos a copa, no tronco humano temos também o tronco da árvore e do quadril para baixo temos as raízes. Mas o mestre faz uma comparação mais inteligente e coloca como raízes os intestinos (o sistema digestivo), que têm o contato com a “terra” que colocamos para dentro, buscando absorver dela os nutrientes necessários à vida. Esses sim funcionam mais como raízes do que as pernas. Essa mudança de perspectiva ampliou em mim o espaço de importância dos intestinos na construção e sustentação da nossa vitalidade. Afinal, o que é uma planta sem raíz senão uma planta morta, um galho decorativo? Minha nova imagem mental do “ser humano árvore” com as raízes centralizadas no abdômen me trouxe maior admiração pela complexidade artística que somos. Que feito extraordinário atingindo pela mãe natureza! Seres viventes com raízes portáteis! Livres pra andar, para escolher a “terra” nutritiva na qual “colocará” suas raízes. É um grande poder!

O homem pode ser comparado a uma planta: seus intestinos são as suas raízes; raízes portáteis, já que ele as carrega consigo. Os órgãos digestivos, assim como as raízes vegetais, estão constantemente absorvendo alimentos para a sua nutrição. Essa absorção, equivale à força digestiva, à força vital, fundamental.

Não irei desenvolver o tema moxabustão propriamente nesse post. Irei apenas dividir essas três citações que julguei relevantes para se ter sempre em mente nos atendimentos que utilizam esse recurso.

Ordem de aplicação

Começamos a fazer as aplicações na parte anterior do corpo; em seguida, na parte posterior, obedecendo-se ainda a seguinte ordem: de cima para baixo; da esquerda para a direita, em pacientes do sexo feminino e, da direita para a esquerda, em pacientes do sexo masculino.

Precauções

Não se deve fazer aplicação de moxabustão numa pessoa com o estômago cheio. Somente uma hora antes ou depois das refeições o tratamento pode ser aplicado. O mesmo é válido para banhos, ou seja, a aplicação deve ser feita uma hora antes ou depois do banho.
Não se aplica moxabustão numa pessoa que esteja com o estômago vazio, sentindo fraqueza e fome ou depois de haver ela tomado bebidas alcoólicas. Após as aplicações não é necessário agasalhar bem a pessoa, bastando apenas vestí-la normalmente.
Logo após a aplicação não se deve fazer esforço físico, nem molhar as mãos, durante aproximadamente uma hora.
Não se faz moxa durante o período menstrual.
Essas condições precisam ser observadas.

Aprendizado

A técnica é uma coisa mecânica mesmo, como andar de bicicleta, por exemplo. Não se trata de pensar ou sentir. Situa-se num nível mais baixo, inferior. Lembremo-nos de que é o treinamento inferior que sustenta o desenvolvimento superior. É preciso, portanto, fortalecer essa fase inferior, mecânica e técnica. É necessário treinar bastante, a fim de incorporar esse funcionamento mecânico à nossa sensibilidade, não esquecendo, por outro lado, que essa aplicação de moxa não é padronizada, isto é, a mesma coisa para todos os indivíduos. Cada aplicação visa resolver um problema pessoal e não apenas local. O problema não é a doença, é o doente mesmo. Tratando um doente, às vezes precisaremos fazer aplicações num ponto da cabeça, como o Hya Kue (VG20), a fim de melhorar seu estado mental.

O livro traz uma série de pontos indicados para moxa e suas funções. Também algumas combinações com detalhes enriquecedores sobre seus motivos e algumas referências históricas. Espero que você tenha compreendido que essa leitura está no grau de recomendação essencial ao trabalhador que tem no seu ferramental a moxabustão!

Observação importante: a mobilização energética da moxa é muito forte. Com moxa não se brinca. Assim como há um eficiente potencial terapêutico, trazendo resultados rápidos e muita animação tanto no terapeuta quando no beneficiado por conta desses resultados, a moxabustão tem também um enorme potencial para a iatrogenia. Tenha cuidado! Saiba o que está a fazer. Sempre! Suas ações devem ter uma causa lógica e definida, avaliada por métricas.