Esse livro chegou até mim sem intenções. Esperava uma amiga numa livraria quando vi um título interessante – O culto da performance – com um subtítulo mais interessante ainda: Da aventura empreendedora à depressão nervosa. Comprei!

Aquele que chega lá e é dito vitorioso, se deprime;
pois se separada dos demais.

 

Como bom livro de filosofia, a leitura exige um pouco mais do leitor. Investimento que, nesse caso, vale muito a pena. Comentarei a seguir a penas a introdução. Um resumo dela, que já vale o livro, e explica como aventura, esporte e empresa são vistos como os atuais caminhos disponíveis para o sucesso. O esporte tem um papel crucial na criação do imaginário coletivo. Seu ponto central está na dimensão da justa desigualdade, que se encontra na competição esportiva tradicional. Assim, ele foi o vetor para a mudança no imaginário coletivo do que é uma empresa.

A dificuldade de se unir, de “se fazer um” com os outros faz subir e descer nossa auto-estima, nos desestabilizando numa região muito profunda em nós. Essa dificuldade de “se fazer um” deu espaço para a legitimação da desigualdade no mundo, o desamor. Nosso inconsciente sabe e sofre com isso. Nessa condição culpamos facilmente aos próprios desfavorecidos por sua condição (culpamos os pobres por serem pobres) e, sem saber, nos deprimimos por isso. Porque o corpo psíquico avisa com a depressão que há algo errado no corpo maior que é a raça humana.

O verbo lutar é aceito nas relações entre nós e premia o mais forte numa interação primitiva.
A revolução é o mundo unido e a paz! Concorda?

 

Resumo da introdução de

O culto da permance

da aventura empreendedora à depressão nervosa

do autor Alain Ehrenberg

Você é bem sucedido? Então, é um grande empresário;
ou é gigante no time; ou é um aventureiro bem patrocinado!

culto_da_performanceAventura, esporte e empresa são os atuais caminhos disponíveis para o sucesso, para a auto-realização e manutenção da auto-estima.  Essas três vias convergem em seus discursos. Uma equipe esportiva diz “Precisamos ser como uma empresa!” e um grupo empresarial diz “Precisamos ser como um time”. São modelos de organização coletiva que se inspiram, se nutrem mutuamente. Assim como o aventureiro é uma empresa e um esportista por si só.

O empreendedor é o atual modelo de vida heróica. Ele resume um estilo de vida que põe no comando a tomada de riscos numa sociedade que faz da concorrência interindividual uma justa competição.

A salvação coletiva ficou ofuscada pelo brilho excessivo da necessária auto-salvação, da cobrança interna, aprendida todos os dias, de tomar atitudes conquistadoras.

Você, você e você! E você sozinho tem que conseguir! Voltados para nós mesmos como nossa própria referência somos a questão e a resposta. Temos que encontrar um lugar para nós próprios, uma identidade, nos construir por nós mesmo. Não conseguimos romper o limite da nossa individualidade para olhar além.

Com um futuro incerto, onde fracassou acreditar no progresso coletivo linear, que simbolizava o estado-providência, a ação de empreender é eleita como instrumento do heroísmo generalizado. Por isso o sucesso do empreendedor é considerado a via do sucesso.

Essa crença de que a salvação coletiva fracassou coloca em nossas mãos apenas as ferramentas da salvação individual e nos diz que essa é nossa última chance.

Cabe perguntar como a empresa, símbolo da auto-suficiência de um país, instrumento da dominação dos fortes sobre os fracos, sofreu uma mudança tão decisiva no imaginário coletivo, a ponto de virar uma resposta legítima para a maior parte de nossos males.

A mudança no imaginário esportivo auxiliou como um vetor a mudança no imaginário da empresa, ou seja, direcionou. O esporte popular se apropriou da realização pessoal do consumo e se tornou o que conhecemos hoje por esporte. Mudou-se a resposta para a pergunta do que é sucesso social e mudaram as políticas de gestão de pessoal. Reorganizando as políticas demissão e reinserção profissional. Está tudo tão competitivo e individual que vai se perdendo a noção de família.

Diante disso vemos vir a obrigação de ganhar (e não crescer) acompanhada de uma crise de identidade maior e uma depressão nervosa. Cristaliza-se uma pressão psíquica inédita, bem como um fundamentalismo identitário acompanhado da pacificação aparente da sociedade.

No espaço político-social, há movimentos neo-comunitários. No espaço psíquico, há a depressão nervosa. Ambos profundamente intricados. Essas são as novas ruínas do progresso.